Já vos dissemos que gostamos de tradições? E de documentários? Bom, se nos derem um documentário sobre tradições, estamos no céu! Ora é isso que o João Pedro Azul nos propõe - um documentário multimédia, interactivo e de livre acesso sobre a Queima do Judas, em Vila do Conde. Convidámos o nosso amigo Azul para vir até cá a casa falar-nos um pouco sobre este seu trabalho.
Qual a história da Queima do Judas?
Queimar o Judas é uma tradição apropriada pelo cristianismo como forma de exorcismo de algo ou alguém que simboliza o mal. Há em Portugal um conjunto de outras tradições cuja origem é semelhante: Enterro do Bacalhau ou a Serração da Velha. Festas populares e pagãs, por altura do solstício de Inverno, que celebram a chegada da primavera e da vida que renasce com ela. As colheitas que começam a dar os primeiros frutos. Tratam-se de heranças de rituais primitivos onde com a morte se esperava ver a natureza ou os deuses retribuírem com sinais de prosperidade. A Queima do Judas tem essa mesma natureza. Através do Judas, o povo expia alguns dos seus demónios.
Que importância socioeconómica crês ter esta tradição?
Numa altura em que os espectáculos comunitários estão muito em voga, acho fundamental investir em projectos que asseguram a sua continuidade pela força natural da sua existência, da sua própria memória.
A sociedade pós-moderna centrou-se no individuo, criou-lhe a ilusão de que sozinho ele era mais forte. O espaço público morreu. O verdadeiro, não o encenado pelos mass-media.
Como é a Queima do Judas no séc. XXI?
Desde a primeira edição da Queima do Judas de Vila do Conde, que a sua direcção nunca pretendeu reproduzir uma tradição. Uma tradição com dois momentos chave: a leitura do testamento do dito, onde, com ironia e sarcasmo, se expunham alguns males da respectiva comunidade; e a queima do boneco, propriamente dita.
Procurou-se reinventar o formato, mantendo esses dois pontos, mas surgiu a dança contemporânea a par do foclore; surgiu o circo e o teatro de rua; na música cruzou-se fado e hip hop; fez-se fotografia e vídeo.
Desta forma, a identificação social foi generalizada. Quer na participação quer na audiência, as barreiras etárias foram derrubadas. E sobretudo, a comunidade partilhou o mesmo espaço e tempo. A Queima do Judas em Vila do Conde tornou-se uma festa ao nível do S. João.
De que consta o teu projecto?
Este projecto de um documentário multimédia, para visualização online, sobre a Queima do Judas, em primeiro lugar, é o meu projecto final do Mestrado Multimédia, e depois, dada a minha relação próxima com o evento, pois desde a sua direcção artística até à simples participação como actor, sempre me mantive uma relação estreita com o evento e com os seus participantes, esta seria uma excelente forma de dar visibilidade ao acontecimento que se circunscreve a uma apresentação única e em Vila do Conde.
Assim, desde a sua concepção até ao espectáculo, foram filmadas reuniões, ensaios, foram feitas entrevistas, registos audio e fotográficos. Um manancial de informação que no seu conjunto traça uma excelente visão daquilo que é a Queima do Judas de Vila do Conde,
Sabemos que és natural de Vila do Conde. Além dessa ligação, o que te levou a fazer este trabalho?
A opção de filmar a concepção deste evento e permitir que este conteúdo seja de acesso livre, tem como intenção, não só promover A Queima do Judas de Vila do Conde, mas sobretudo, revelar este encontro entre diferentes gerações através da arte e da cultura. A informação será complementada com leituras recolhidas sobre este tipo de manifestação.
Acreditas, como nos transmite o Tiago Pereira, que é importante uma "alfabetização da memória"?
A memória é algo precioso. Não falo só da memória colectiva mas também da individual. A perda individual da mesma é algo que atinge quase todos. Mas a memória colectiva é algo bem mais duradouro. E, no meu entender, importa não só lembrar, como criar novas memórias. Desta forma, a Queima do Judas é um exemplo claro e inequívoco disso mesmo. Acredito que esta tradição se reinventou para a comunidade de Vila do Conde. Soube adaptar-se a um presente fugaz mantendo as suas raízes mais profundas. Principalmente, derrubou barreiras socioculturais, trazendo a arte para a rua. Neste sentido, a memória mais do que ser alfabetizada, precisa de ser alimentada, como o organismo vivo que é.
Quem é o João Pedro Azul?
O João Pedro Azul é um sonhador. Formado em Teatro. Professor de Expressão Dramática. Pós-Graduado em Gestão Cultural. Mestrando em Multimédia. Actor e Palhaço. Pai de 2 moças. Filho de um antiquário. Nasceu em Vila do Conde, onde ainda vive. Quer ser poeta como o da terra. Dirigiu grupos amadores de teatro. Escreveu peças. Ama o cinema e a música. E arte em geral. E a beleza das coisas.
Acreditamos que depois de ler as respostas do João Pedro Azul é fácil perceber a importância da concretização deste projecto. Ele está agora nas fases finais de produção e, para isso, precisa de ajuda. Como tal, foi criada uma página na plataforma Massivemov dedicada à recolha de fundos para a finalização deste trabalho. Nós já lá fomos dar uma ajuda, porque achamos que vale mesmo a pena.
Para terminar, deixamos o teaser do documentário, com música composta pelo Vítor Rua especialmente para a ocasião, e a promessa de que voltaremos a convidar o João Pedro Azul para vir cá a casa mostrar-nos o documentário, quando estiver terminado.

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